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será o Outono?

Senhor: é mais que tempo. O Verão foi muito intenso.

Lança a tua sombra sobre os relógios de sol

e por sobre as pradarias desata os teus ventos.

Ordena às últimas frutas que fiquem maduras;

dá-lhes ainda mais uns dois dias de calor,

leva-as à completude e não deixes de pôr

no vinho pesado sua última doçura.

Quem não tem casa, não a irá mais construir.

Quem está sozinho, vai ficá-lo ainda mais.

Insone, há-de ler, escrever cartas torrenciais

e correr as aléias num inquieto ir-e-vir

enquanto o vento carrega as folhas outonais.

Rainer Maria Rilke, retirado de Mulher procura homem impotente para relacionamento sério

Falava sobre a idade, a influência desta nos comportamentos, sobre os homens e as mulheres. Sobre a ideia de beleza ao longo dos tempos e (não) presença da magreza.

Falava dos quilos que ganhou graças à Cadbury, dos que não consegue perder entre as 22h e a meia-noite. Sobre culpa e penitência.

Parecia efeminado, mas dizia-me fazer compras para casa, para a esposa, para os meninos.

Falava de viagens para Norte, da minha Londres e da Escócia.

Por entre perguntas cirúrgicas, avaliações de carácter e prescições.

Gala contemplando el Mediterraneo, que vista desde veinte metros se convierte en el retrato de Abraham Lincoln – Homenaje a Rothko- Lincoln en Galavision (Primera version)
Salvador Dali, 1974-1975; 4.45 x 3.5 m; Fundación Gala-Salvador Dalí, Figueras (First version)

beijinhos e peixinhos

Vai minha tristeza e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer
Chega de saudade, a realidade é que sem ela
Não há paz, não há beleza, é só tristeza
E a melancolia que não sai de mim, não sai de mim, não sai
Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim

Chega de saudade, João Gilberto

Roubado daqui, para não esquecer.

tortura

gato nos lençois Pictures, Images and Photos

Os olhos emperram, cerram-se com força, recusam-se a abrir. A Maria vem e ataca-me o nariz, permanentemente de fora dos lençóis, como que a acordar-me, a chamar-me para a brincadeira das suas patas, das suas trincas, dos seus saltos e ataques.

A custo reajo, maldigo mentalmente todos os despertadores que tocam e todos os pensamentos que me acordam antes do tempo, antes do corpo sentir a necessidade de sair da cama.

E venho para aqui, para a sala branca, os olhos ainda a quererem fechar e a mostrar veementemente a sua força, domínio do corpo sobre a mente.

(não é a maria, mas bem menina para pose semelhante é ela!)

mamma mia!

Boa disposição, amor, finais felizes, risadas, tudo o que eu estava a precisar depois de um fim-de-semana mais atribulado. E que vontade de cantar, dançar ao som daquelas músicas que fazem parte do nosso imaginário.

Nos próximos dias, a banda sonora acompanha-me no carro, para trazer o sol grego aos meus dias.

it´s raining again

Com a chuva de regresso questiono-me sobre o efeito do tempo no humor, sobre as razões que fazem as gotas de água que caem lá fora caírem também no meu rosto.

Ou será que apenas me faltam horas para dormir, sonhos para sonhar, dias para não acordar?

o meu caminho

Estou perdida, sabes? Procuro o meu caminho e não encontro as migalhas que fui deixando. Será que me esqueci de as deixar? Ou será que desapareceram, se fundiram com a natureza, após tanto tempo de abandono?

Tenho que começar de novo, que construir um novo caminho, desta vez a um, e, esperar que, a pouco e pouco, reconheça as pedras, os rios, as planíceis e os percursos atribulados.

Sempre em frente, em direcção ao horizonte, aos sonhos.

organização

Estive a organizar o coisas minhas, a compô-lo com coisas soltas que fui escrevendo por aí, a ver se fica com mais corpo, cada vez com mais coisas minhas.

(in)competência para amar

Por muito que pense no que quero para mim e para a minha vida é-me sempre mais fácil definir o que não quero do que o que realmente quero e sofro com isso, nivelo a minha vida por baixo, por um lado, e espero demais de tudo o resto que quero como meu.

Sou assim comigo, contigo, connosco, com os outros, com todos aqueles de quem realmente gosto.

a minha caixa

Luto com a decisão de manter ou não a minha caixa de pandora aberta, mantenho a destruição bem guardada dentro de mim ou solta-a e partilho-a com o mundo, que, sendo de todos, é meu também?

plano de poupança

Isto de morar sozinha tem a desvantagem de ser sempre o mesmo NIB de origem para o pagamento das contas da prestação da casa, da luz, da água, do gás, da tv, da internet, da gasolina, das compras do supermercado e de todos os extras e indispensáveis para o meu dia a dia.

Por isso hoje decidi instituir uma poupança forçada, para ter mais um dinheiro para outras coisas, para outros extras, outros devaneios, outros planos, desejos próximos ou a mais longo prazo.
Devagarinho, e aos poucos, já que abdico de umas coisas, porque não posso poupar para outras?

feels like monday

Por vezes sinto-me a perder a razão. A viver num mundo tão meu, que me assusta e me preocupa que não queira mais de lá sair, não porque seja melhor, apenas por inércia, por revolta, por medo, por sono até.

www.savemiguel.com

terapia

Dançar pela sala com a maria ao colo, rodopiar e parar, sentada, no chão da cozinha, tonta, a maria deitada ao meu lado.


Antes que acabasse o mês de Agosto, fomos vê-lo ao cinema, por entre bailaricos, canções populares, amores de Verão, vilas da Beira, emigrantes, tudo falado em português.

Gostei deste retrato das nossas romarias, das cantigas, do amor das mulheres, do documentário que se transforma em filme, dos sons que não estavam lá, e dos que estavam lá, nas paisagens, nas serras.

fashion

Hoje a minha mãe confidenciava-me que gostava de poder vestir calças, que as calças lhe assentassem bem. Se assim fosse, mudava a sua roupa toda e só usava calças.

Compreendi-a tão bem. Tal como ela, eu também não uso determinadas peças de roupa, habituei-me a cobiça-las nas lojas, nos corpos das outras mulheres, por vezes revoltada, outras frustrada, incapaz de (me) aceitar.

4 anos é pouco tempo

Hoje, quase a chegar a casa, parei num cruzamento para dar passagem a um outro carro. O condutor, ao mesmo tempo que agradecia, acendia um cigarro, num gesto que reconheci como tão familiar que me trouxe uma forte vontade de repetir aquele gesto e inalar também eu aquele fumo.

Só uma vez. Só esta vez. Só um. Sozinha, com o cigarro e fumo e os meus pensamentos.

desejo

Sentir a pele a arrepiar, um frio no estômago, um calor ao fundo da barriga, os sentidos alerta, o corpo a reagir ao toque, à mente, ao desejo.
Quero-te! Quero-me!

um cone com duas bolas


Há tentações às quais não consigo resistir. Porque não quero. Porque são simplesmente deliciosas. Porque me dá prazer escolher os sabores, combiná-los, e saborear cada bocadinho…

Hoje escolhi o clássico doce de leite e experimentei o chocolate negro com laranja, de que fiquei fã.

Já em casa, descobri que os senhores Haagen e Dazs não são dinamarqueses, nem escandinavos, mas sim americanos com ascendência polaca. E eu a pensar que era para a Dinamarca que queria emigrar…

hoje

Por estes dias tenho-me sentido perdida. perdida nos meus pensamentos, nos planos dos dias e da vida. Se tudo me parece certo, o certo soa-me a incerto e indefinido. Os dias no trabalho correm ao sabor do que tem que ser feito, como que as listas de prioridades ficassem para trás, impossíveis de cumprir.
E eu, a assistir, serena, espectadora da minha própria vida.

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